21/10/09

Amizade

Esse sol. Cega os meus olhos.

Um, dois, três velhos sentados em volta de uma mesa comentam sobre temas de velhos. Dentista, o filho do dentista, a alegria de ser um dentista.

Do outro lado um bonitão de sunga torra toda a sua pele, finge que lê um livro na beira da piscina, fala ao celular, blá blá blá etc e tal.

Queria ter alguém aqui do meu lado, tomar uma cerveja, passar protetor nas costas, rir do bonitão que agora resolveu dar um pulo na água e mostrar seus dotes de nadador semi-profi. Certeza que quando chegar aos 43 vai querer participar de algum Iron Man internacional. Tiger, Tiger, quer me ajudar nas cruzadinhas?

Qual é o nome do livro que estou lendo agora? Trópico de Câncer. Meu avô falou que na época este livro fez muito sucesso, quebrou paradigmas, hoje me parece só um enfadonho relato sobre “vulvas”, “fêmeas”, e sexo em hotéis podres e sujos da Paris dos anos 30. Eu o leio antes de dormir. O tédio ajuda a embalar o sono profundo.

Mas do que estava falando mesmo? De nada em particular, mas queria falar de algo...Algo que me incomodou esse dias. Ah claro, o término de uma amizade. Me parece meio pequena esta frase agora. Recebi a noticia num domingo a noite, num agradável momento da minha noite; pipoca na panela, coca gelada, filmes despretensiosos na TV. Olha, eu tô te ligando pra terminar a nossa amizade. Pessoas como você eu dispenso da minha vida. Vida. VIDA. Acho esse conceito de terminar algo tão etéreo muito interessante.

Daí eu pensei em várias coisas, pensei em ligar de volta e mandar tomar no cu, pensei também em escrever um belo email, pensei que, enfim, as pessoas são loucas mesmo, inclusive eu. Mas terminar assim, terminado? Com ponto final? Não, não. Amizade não é uma instituição como um casamento, uma empresa jurídica. Aqui está a rescisão, assine aqui e aqui também por favor.

A amizade funciona como uma matéria social. Namoro ou amizade? Amizade, sempre, a não ser que o cara trepe muito bem. Não. Não se termina uma amizade assim. Ela é uma espécia de gás, não pode ser abatida, nem posta num saco plástico e jogada no rio Tietê. Pra terminar uma amizade é necessário muito mais que isso.

Porque a amizade é maior que o amor, e não to falando isso porque acho bonitinho, mas quando você sai pra tomar uma cerveja com uma pessoa durante anos da sua vida, bem, é maior que amor. Como aqueles casais de 50 anos, já aconteceu de tudo: adultério, pornografia, segunda família, brigas e mais brigas, mas estão juntos, porque não é mais amor, é amizade.

E quando as pessoas atingem o ponto da amizade, existe uma suposta solidez, uma suposta solidez emocional. O amigo, aquela pessoa, ela tem que ser só aquilo. E aceitar e ser aceito, é no amigo que refletimos muitas coisas, existem ligamentos invisíveis que unem as pessoas de uma tal forma que, seria impossível, pela dinâmica natural, serem desligadas. Mas pelo o que entendi, foi.

Nesta mesma dinâmica o amigo deve ser firme, manter o seu posto, ser duro como uma rocha. E cá estou eu, esperando que essa minha pessoa entenda que eu sou sua amiga. Não sou sua comparsa ou até mesmo, sua inimiga mais íntima. Estou aqui em carne e osso esperando calmamente ela se acalmar e voltar a puxar o seu lado da nossa cordinha. E vou esperar o quanto for preciso porque sei que uma amizade não termina assim. Não senhor.

14/09/09

resolução VII

Às vezes um é melhor que dois.

03/09/09

Houve um tempo em que o amor era somente uma coisa boa. Para os dois era, até então,sentir o calor emanado vir de todas as direções, era sentar num fim de tarde e sorrir para o pôr-do-sol, todo dia mais belo, todo dia mais formoso. Era enfim, amar e ser amado.

Mas daí, aconteceu. Não me lembro se foi apenas dentro do olhar que aquilo cresceu, ou se veio de um outro lugar ainda mais longo e sombrio. Pensando bem, pedaços daquele terremoto estavam espalhados em vários cantos, e um dia, por uma faísca de fogo, eles se concentraram, se uniram e explodiram. Ali na sala, naquele canto verde, bem ali, no finalzinho.

O amor e as trevas possuem a mesma medida e ,se de um lado derrama, acaba esbarrando no outro que, inundando, derrama também. Todo o resto do corpo fica descompensado. As ondas querem sair pela boca, que vai espumando e trazendo junto com a espuma, palavras grandes como tormentas, palavras duras como pedras, pesadas como cimento, afiadas como lâminas. E foi assim, por conta de uma faísca, que o sol daquela tarde se pôs mais depressa e uma nuvem escura e carregada de chuva, avançou sobre o céu de São Paulo.

Por um átimo eles já não eram mais amantes, já não podiam ouvir mais a voz um do outro. Era insuportável o grunhir de raiva, de tristeza, de desapontamento. Mas por quê? Porque existem lugares a onde não se pode entrar duas vezes, ela diria; ao que ele retrucaria respondendo que só o espelho não dá conta de refletir, sozinho, o que realmente somos. Para ela, os erros eram passíveis de esquecimento, mas infelizmente, nem sempre se esquece e rastros ficam voltando à tona, migalhas tortas, que grudam, como aquelas bolas de pelo de gato, que saem do tapete e vão parar na sua blusa.

E por conta de todas essas migalhas coladas umas as outras, ela percebeu quão grande eram os seus erros. Agora esquecer não poderia mais e se tivesse um pote de cola e uma borracha, usaria sem parcimônia no coração do amado. Ai...quanta dor que foi sentida. As palavras mais doces não serviriam para consolar a miséria crescente dele. Se pudesse ela fechar os olhos, tampar a boca e os ouvidos durante todo um dia, se pudesse, se. Mas agora, vendo que também chove nas ruas e não só lá dentro, tudo parece um pouco menor. Agora, que o outro dia amanheceu ensolarado,e o fogo que fora ateado cessou de arder, ela consegue respirar. Ela pode olhar para o seu rosto no espelho e ver um pouco mais do que só pele.

Mas ainda assim ela sabe, só o tempo cura, já diziam, as mazelas de um coração ferido. É difícil entender como funciona os processos do amor. Porque mesmo que ele seja grande, ainda assim é capaz de acabar tão mais rápido quanto nasceu, e o outro, perdido na guerra, se vê abandonado na imensidão daquele sentimento, sem poder dizer pra ninguém, que tem medo da solidão.

Aliás, solidão é do que ela mais tem medo. Nesses tempo, onde as pessoas não querem mais ouvir umas as outras, o ombro do querido amado é o seu grande divã. Mesmo que pra poder falar o que sente, ainda é preciso um caderno, e ela vai escrever pra ele uma carta de amor. Mais ou menos como aquelas que antigamente se escreviam para o grande amor que estava no front de guerra. “ Amor meu, ainda estou aqui, te esperando. Não morra. A sua torta preferida, ainda está na janela...”

resolução VI

Se estiver escuro, não entre.

24/08/09

Inspiração

Venha,
a inspiração é sempre bem vinda.
O som das palavras não me intimida,
e por isso sou poeta
sou pura poesia.

Se precisar de uma rima
ela vem sem pressa.
A palavra deve ser bem usada
nunca dura, ou severa.

Pode ser poeminhas
de amor
de amizade
de comida
de pessoas
da vida

A inspiração
é
sempre.

Tudo que ela me dá,
eu aceito veemente.
De mim nunca tirou nada,
e entre virgulas e pontos,
ela mostra o caminho.

Não é simples linha reta,
veja bem, a inspiração
não é meta.

É desejo e ar,
é feita de sonhos e de coisas
etéreas.

A inspiração é sempre ela.
E eu sinto a sua presença
pesando em meus ombros,
entrando pela minha testa,
expandindo dentro da minha cabeça.

E mesmo que o poema
seja assim meio sem pé
nem cabeça.

Sem métrica
e sem regra.

Ainda assim eu posso dizer
sou poeta
e a inspiração
é
para sempre
a única coisa que me
resta.


14/04/09

Ode Ao Amor

Eu amo
Vivo na intensidade do amor presente
Eu vivo ele diariamente
Constante ele queima
Por dentro
Eu amo
Ainda hoje e sempre amanhã
Mesmo sem serenidade, eu amo
O fogo que arde é verdadeiro
Amo por inteiro e incessantemente
Eu amo
E a dor que é, não dói.
E se não há, corrói.
Eu sei, porque amo.
E sem o amor eu não seria
Não existiria uma outra metade minha
Eu amo
Sou completa e só assim eu vivo
Amo agora
E amo indivisível
Não há somatórias, só amor
Bruto e concreto, insolúvel.
Amo como posso
Amo com o que tenho
Amo porque não temo
Aqui dentro é só amor
E é só ao amor a quem pertenço.

26/03/09

A Rã Cinza

Rãzinha bonitinha
Tem uma cara engraçada
Boca grande, quase farta
Quase não fala quando na água
Ela é uma rã cinza
Da pele lisa e macia
As largas falanges das patas
Seguram as pedras enquanto
Observa os dois mosquitos verdes
E com os seus olhos escuros hipnotiza
Nenhum inseto foge a sua língua
Mas é só um leão rugir
Que a rãzinha fica ranzinza
Fecha a cara e nem coachar ela quer
Mas isso dura pouco,
Logo logo quando o sol arde
Lá está ela pelo parque
Pulando de pedra em pedra
Exibindo todo o seu dorso
Esticando as patas e beijando outros sapinhos
Essa rã é um barato
E eu que nem em anfibios me amarro
Simpatizei com o tal bicho
A ponto de querer virar eu mesma
Uma joaninha um besouro ou ratinho
E sentar numa folha perto dela
Só pra ser a sua amiga.

13/03/09

Anatomia do ser ontológico

São tantos os olhos abertos
E muitas as bocas parlantes
São dedos em riste apontando
o onde, a onde ou quando.

Ouvidos há muito atentos
Em volta das cabeças pensantes
E dentro pensamentos estranhos
O que pensam não importa,
O que importa é o restante.

Nos pés cicatrizes
Logo dois correndo em linha
E os joelhos arcados e doloridos
Balançam a frágil bacia.

E no estômago, universo do vazio
Arde em chamas quando atiçado
Sentimentos quentes ou frios
De acordo com o dia e o quadro.

A lingua, molhada tensiona
Os dentes pra dentro e pra fora
Se movimenta como ondas
Nas costas, na nuca, nas coxas.

E dentro do peito, a pedra.
Mineral alado e pulsante
Esfarela-se quando apertado
Dissolvendo-se no meu restante.